Ovodoação e epigenética despertam uma dúvida muito comum em mulheres que consideram esse caminho para a maternidade: “afinal, se o óvulo vem de uma doadora, meu filho pode se parecer comigo?”.
Embora a carga genética venha da doadora, a ciência tem mostrado que a gestação envolve fatores muito mais complexos. É nesse contexto que entra a epigenética, um campo de estudo que investiga como o ambiente uterino e o organismo da gestante podem influenciar no desenvolvimento do bebê.
Durante a gravidez, o corpo da mãe é um espaço onde o embrião se desenvolve, participando ativamente desse processo por meio de sinais moleculares que podem influenciar como determinados genes do bebê se expressam.
Para esclarecer como isso acontece e o que a ciência já sabe sobre ovorecepção e influência do útero no bebê, a Dra. Taiane Andrade, médica pós-graduada em Infertilidade Conjugal e Reprodução Humana Assistida pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, preparou este conteúdo. Acompanhe!
O que é ovodoação e como funciona?
Ovodoação é o tratamento de reprodução assistida em que há doação de óvulos e recepção de óvulos doados.
No Brasil, a Resolução do Conselho Federal de Medicina nº 2.320/2022 permite a ovodoação altruísta, sem caráter comercial ou lucrativo. Permanece sigilosa, a não ser que ocorra entre familiares de até 4o grau (primos), desde que não ocorra consanguinidade com o parceiro da receptora.
Mas, como é o passo a passo para a ovodoação?
A obtenção dos óvulos doados pode originar-se de Bancos de Óvulos (nacionais ou estrangeiros), que dispõe de um cadastro de inúmeras doadoras e realiza o pareamento das características da doadora e receptora. Com isso, inclusive, contribui para similaridades entre a criança e a mãe que gesta.
A ovodoação compartilhada também é uma opção. Ocorre quando um Laboratório de Reprodução Assistida, que também é um Banco de Células e Tecidos Germinativos – BCTG, definido pela Anvisa como estabelecimentos públicos ou privados que manipulam células, tecidos germinativos e embriões para uso próprio ou doação.
O laboratório realiza o pareamento e planeja os tratamentos da receptora e doadora, junto ao médico assistente, no caso da ovodoação compartilhada.
O estímulo ovariano da doadora pode ocorrer simultaneamente com o preparo do endométrio da receptora para a transferência do embrião 5 dias após a coleta dos óvulos. Ou também, se o estímulo e a coleta ocorrem algum tempo antes, os óvulos são congelados até o dia da fertilização, e posterior transferência do embrião.
Em todos os casos, é o médico assistente responsável pela aprovação da doadora para a paciente receptora, assim como o preparo do endométrio para receber o embrião.
O especialista é capaz de identificar os casos clínicos em que são necessárias a ovodoação para obter a gestação, como insuficiência ovariana prematura, menopausa e alterações genéticas importantes no óvulos próprios que podem inviabilizar o nascimento de um bebê saudável.
Além desses casos, a ovodoação pode ser a única alternativa para reprodução em pessoas LGBTQIAPN+, quando o gameta faltante é o óvulo. Este pode ser obtido de Banco de óvulos ou de parentes de até 4o grau, desde que não ocorra consanguinidade. Por exemplo, não é possível a doadora ser a irmã, mãe, filha ou prima da pessoa que utilizará seu espermatozoide para a fertilização, pois neste caso ocorreria consanguinidade.
Segundo relata a Dra Taiane Andrade (CRM 52 103847-8 RJ | RQE 31779 | RQE 58467), membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), “muitas vezes, a ovodoação é a única alternativa da pessoa obter uma gestação e nascimento de um bebê saudável, sendo um tratamento capaz de devolver a esperança e felicidade, após um período de intenso sofrimento e de tentativas sem sucesso”.
Genética: de onde vem as características físicas do bebê?
Na prática, as características físicas do bebê são herdadas geneticamente através do óvulo e do espermatozoide que deram origem ao embrião. Portanto, 50% da carga genética vem do óvulo e 50%, do espermatozoide.
Por isso, é importante fornecer à equipe de emparelhamento de doadora e receptora todos os documentos responsáveis pelo desenho do perfil genético e fenotípico desejado. Dentre os documentos estão, por exemplo, uma foto da paciente criança, em que são reconhecidas com facilidade aspectos como:
- cor e textura do cabelo;
- cor dos olhos;
- cor da pele;
- entre outras características.
O exame de tipagem sanguínea também é essencial nesse contexto.
Além disso, a origem étnica, o fototipo da pele definido em uma escala com base na quantidade de melanina, e características genéticas familiares importantes são levadas em consideração para a escolha da doadora. O objetivo é encontrar maior semelhança possível com a receptora, já que o 50% do DNA herdado pelo bebê será da doadora.
Então, meu filho pode parecer comigo?
Sim, seu filho pode parecer com você. O processo de busca por óvulos doados é de responsabilidade do Banco de Óvulos e/ou a Clínica de Reprodução, que selecionam e priorizam uma doadora com o maior grau de semelhança física possível. É o médico assistente quem decide pela aprovação ou não da doadora pretendente para sua paciente receptora. Mas, muitas vezes, o processo de pareamento inicial é realizado pela inteligência artificial (IA).
Esses algoritmos são capazes de mapear a face da doadora e da receptora com uma foto, e sugerir o pareamento daquelas que apresentam traços afins. Tornam o processo mais ágil e assertivo, e aumentam a probabilidade da criança gerada se pareça com a receptora.
Dessa forma, é comum perceber que filhos nascidos a partir da ovodoação podem ser muito semelhantes às mães, devido ao extremo cuidado e dedicação para o encontro da doadora certa.
Mas, afinal, o que é epigenética?
A palavra epigenética é formada pelo prefixo grego epi- (que significa “sobre”, “acima”) mais a palavra “genética”. Portanto, significa ser um processo que influencia a expressão dos genes, por meio de alguns mecanismos moleculares, dentro das células.
Apesar da mãe que gesta a partir da ovodoação não contribuir com sua carga genética, ou DNA, ela desempenha papéis essenciais para a formação do novo ser.
Desde a etapa de embrião blastocisto, o qual é transferido ao seu útero, até o nascimento, a gestante é responsável por orquestrar o desenvolvimento intra-uterino do bebê. Isso ocorre através da formação da placenta (placentação) e de como esta trabalha para nutrir o bebê.
Assim, o ambiente uterino é capaz de realizar modulação da expressão gênica fetal. Ou seja, silenciar ou ativar alguns dos genes do bebê. Os fatores ambientais (poluentes, dieta, estilo de vida) aos quais a mãe se expõe também podem influenciar no ambiente uterino que, por sua vez, vai impactar em como o DNA do bebê vai se expressar. Isso significa que a placenta é um mediador crítico da interação materno-fetal, que pode afetar:
- crescimento fetal;
- desenvolvimento de doenças da gestação;
- programação metabólica;
- risco de doenças crônicas na vida adulta da criança.
Como a epigenética atua: exemplos práticos
Um exemplo da epigenética e da interação materno-fetal é o papel de uma molécula chamada RNA circular. Ela é encontrada em células da placenta e fetais, e atua como potenciais biomarcadores para distúrbios relacionados à gravidez, como a pré-eclâmpsia e a diabetes gestacional ¹.
Outro exemplo da ação da epigenética é como fatores nutricionais desempenham um papel crucial durante a gravidez e os primeiros mil dias de vida na determinação da suscetibilidade de um indivíduo ao desenvolvimento de alergias.
Eles podem influenciar a imunidade por meio de mecanismos epigenéticos, como a metilação do DNA, modificações de histonas e microRNAs, que podem aumentar o risco de doenças alérgicas, como alergia alimentar na infância e na fase adulta ².
Além disso, um recente estudo demonstrou que a exposição intrauterina à obesidade ou ao diabetes gestacional está associada a alterações persistentes de metilação em diversos genes fetais. Eles participam de vias metabólicas, relacionadas ao risco de obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiometabólicas no futuro.
Esse processo reforça o conceito de programação fetal (Developmental Origins of Health and Disease), sugerindo que o ambiente materno gestacional pode reprogramar epigeneticamente a saúde metabólica da criança ao longo da vida ³.
Epigenética na ovodoação: o papel da mãe que carrega
O desenvolvimento de uma criança resulta da interação entre sua genética e o ambiente em que cresce.
O local, a cultura, os ambientes familiar e escolar podem influenciar seu comportamento, habilidades cognitivas e motoras, e desenvolvimento emocional, por meio da interação entre fatores ambientais e genéticos, incluindo mecanismos epigenéticos.
Aspectos emocionais e sociais
A literatura existente sobre resultados a longo prazo indica que famílias formadas por meio de doação de óvulos funcionam bem em termos de ajuste emocional da criança, saúde psicológica dos pais e qualidade do relacionamento entre pais e filhos.
Dentro das famílias que revelaram a origem biológica, foram encontrados relacionamentos familiares mais positivos para adolescentes que haviam sido informados sobre suas origens biológicas antes dos 7 anos de idade.
O Estudo Europeu de Famílias de Reprodução Assistida⁴ (Reino Unido, 1999) constatou que crianças concebidas por meio de doação de óvulos apresentaram bom ajuste em termos de desenvolvimento socioemocional aos 3 e 8 anos e aos 12 anos. A fase mais recente do estudo não encontrou diferenças no funcionamento psicológico ou na autoestima dos adolescentes.
Mães que optaram pela ovodoação expressaram maior satisfação com a maternidade e maior afeto pelo bebê do que mães que conceberam naturalmente, e maior prazer na proximidade com o bebê.
Opinião da especialista: ovodoação além do DNA
Quando se fala em ovodoação, é comum que a genética seja vista como o único fator determinante na formação do bebê. No entanto, a medicina reprodutiva atual mostra que a gestação envolve processos muito mais complexos, nos quais o corpo da gestante também desempenha um papel importante no desenvolvimento do embrião.
“A compreensão da epigenética tem ajudado muitas pacientes a enxergar a importância do seu papel na maternidade por ovodoação. O organismo da mulher que engravida participa ativamente do desenvolvimento do bebê por meio de mecanismos epigenéticos, que influenciam a forma como determinados genes se expressam, contribuindo para a construção dessa nova vida.
Por meio de um cuidadoso pareamento das características da doadora e receptora, realizado com muito zelo e tecnologia, é possível alcançar grande semelhança entre o bebê e a mãe.”
- Dra Taiane Andrade (CRM 52 103847-8 RJ | RQE 31779 | RQE 58467), ginecologia e Reprodução Assistida
Entenda se a ovodoação é o melhor caminho para você
Após entender como ocorre a ovodoação e epigenética, torna-se mais fácil escolher o melhor caminho. Afinal, se sua preocupação era se seu filho poderia se parecer contigo, o apoio profissional e a escolha cuidadosa do médico assistente aumentarão a chance de maior semelhança possível para sua confiança em seguir nessa jornada de fertilidade.
Mas, é importante ressaltar que a decisão de recorrer à ovodoação envolve aspectos médicos, emocionais e pessoais. Por isso, mais do que escolher um método de concepção, é importante compreender todas as possibilidades disponíveis, os tipos de ovodoação e como cada etapa do processo funciona. E o acompanhamento especializado faz toda a diferença para que aconteça com confiança e tranquilidade.
Além de avaliar fatores como idade, reserva ovariana e histórico reprodutivo, a orientação de um médico especialista em reprodução assistida também ajuda a esclarecer dúvidas sobre o desenvolvimento. Esse suporte permite que o casal tome decisões mais conscientes e alinhadas com seu momento de vida.
Se você está considerando a ovodoação ou deseja entender se essa é a melhor alternativa para o seu caso, a Dra. Taiane Andrade (CRM 52 103847-8 RJ | RQE 31779 | RQE 58467), especialista com atuação em Infertilidade Conjugal e Reprodução Humana Assistida, poderá orientar cada etapa do processo.
Agende sua consulta ou navegue pelo blog para tirar todas as suas dúvidas sobre reprodução assistida. Com a orientação adequada, é possível planejar a gestação de forma segura e dar os próximos passos rumo à realização do sonho de ter um filho.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Referências
¹: Hanna CW. Placental imprinting: Emerging mechanisms and functions. PLoS Genet. 2020 Apr 23;16(4):e1008709. doi: 10.1371/journal.pgen.1008709. PMID: 32324732; PMCID: PMC7179826.
Disponível em https://journals.plos.org/plosgenetics/article?id=10.1371/journal.pgen.1008709
²: Di Costanzo M, De Paulis N, Capra ME, Biasucci G. Nutrition during Pregnancy and Lactation: Epigenetic Effects on Infants’ Immune System in Food Allergy. Nutrients. 2022 Apr 23;14(9):1766. doi: 10.3390/nu14091766. PMID: 35565735; PMCID: PMC9103859.
Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35565735/
³: Alba-Linares JJ, Pérez RF, Tejedor JR, Bastante-Rodríguez D, Ponce F, Carbonell NG, Zafra RG, Fernández AF, Fraga MF, Lurbe E. Maternal obesity and gestational diabetes reprogram the methylome of offspring beyond birth by inducing epigenetic signatures in metabolic and developmental pathways. Cardiovasc Diabetol. 2023 Mar 4;22(1):44. doi: 10.1186/s12933-023-01774-y. PMID: 36870961; PMCID: PMC9985842.
Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9985842/
⁴: Susan Imrie, Susan Golombok, Long-term outcomes of children conceived through egg donation and their parents: a review of the literature, Fertility and Sterility, Volume 110, Issue 7, 2018, Pages 1187-1193, ISSN 0015-0282.
Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.fertnstert.2018.08.040
